quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Invictus

Quando perguntados como fazer um filme, a maioria dos cineastas tem a mesma resposta na ponta da língua: em primeiro lugar, você deve ter algo bom para contar.

O que melhor que a história de um homem que, depois de passar 27 anos como preso político, volta para o seu país como presidente da república, podendo assim lutar contra os muitos problemas que o cerceavam?

Invictus, dirigido pelo grande contador de histórias Clint Eastwood, se passa desde a campanha de Nelson Mandela (Morgan Freeman) até seu mandato como presidente da África do Sul.

O novo líder assumiu a política de um país ainda dividido por questões culturais e raciais onde as marcas deixadas pelo apartheid ainda faziam parte da vida das pessoas. E Mandela, frente a esta realidade, concentra esforços em trazer união entre estas diferentes etnias que convivem no país.

O filme gira em torno de um dos seus maiores esforços neste sentido, o time que representa o país no Rugby, os Springboks.

Com sua formação na época composta majoritariamente por brancos, o time fez com que, durante anos, a grande maioria dos oprimidos pelo antigo regime torcesse contra ele nas partidas com seleções mundiais, fato que levou dirigentes políticos pós apartheid a tentar mudar cor e brasão do mesmo. Mandela interferiu nesta decisão alegando que havia uma minoria que amava estas cores e os tinha como representantes do país neste esporte. Atento a uma minoria que o pôs na prisão, o então presidente enxergava o poder do esporte em unir pessoas sem tomar parte por interesses de um lado ou de outro, mas pelo país.

Foi assim que ele começou a sua aproximação com o capitão da seleção François Pienaar (Matt Damon), impressionando o jovem jogador com a sua história e o fazendo acreditar em um bem comum para toda a África do Sul: ganhar a Copa do Mundo de Rugby de 1995.

Nesta parte, surge a primeira citação ao poema que dá nome ao filme. Mandela cita que para buscar o melhor de si é necessário se superar a cada dia, e que as palavras do poeta William Ernest Henley o faziam levantar quando em seus anos de exílio tudo o que ele queria era ficar deitado. As palavras que compõem o poema aparecem narradas por Morgan Freeman quando François e a seleção visitam a cadeia onde o presidente passou tanto tempo preso.

Nesta hora, também surge um de seus momentos mais sublimes, representado por palavras, onde François é questionado pela noiva se está tão pensativo por causa do jogo no dia seguinte. Ele responde que não, que está se perguntando como alguém fica 27 anos preso em um espaço tão pequeno pode sair de lá disposto a perdoar aqueles que o prenderam.

No final das contas, contar uma boa história é um fato relevante, mas Clint Eastwood vai além.
Em cada movimento de câmera, em cada zoom, em cada nota da trilha sonora, o diretor transparece o carinho que teve ao criar esta obra de arte épica. Mas não um épico tradicional, com heróis objetivos em grandes batalhas físicas. E sim a história real de um homem que precisou viver uma batalha consigo mesmo durante 27 anos para depois começar uma outra batalha que buscou tocar o coração e a alma de 43 milhões de cidadãos sul africanos e de todo o resto do mundo.

Um filme e um homem que devem ser imortalizados para que o ser humano não se esqueça de sua história e do que é capaz de fazer, com e para seus semelhantes.




O filme estreia nesta sexta-feira, 29 de janeiro.

Por Marcio Andrade, publicitário e leitor do Cult Cultura

Um comentário:

Thá Poli disse...

Oi, Marcitos!

Fui assistir ao filme hoje, por causa da sua crítica, e A-DO-REI! É aquele tipo de filme que você se arrepia com a história, com as cenas, com as identificações...

São muito interessantes as partes que ele fala sobre o perdão, sobre liderança "Você me elegeram seu líder, agora deixem-me guiá-los", sobre inspiração, generosidade...

E a Paz que o ator passa? Nossa, demais! Essa história é um verdadeiro exemplo, uma lição de vida!